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sexta-feira, 10 de abril de 2015

TEXTO DE MILLÔR FERNANDES - O nível de stress de uma pessoa

O pensamento abaixo tem palavras um pouco fortes para algumas pessoas, mas é um texto super interessante, vale à pena ler até o final. 
Eu sempre conheci este texto como sendo do Millôr Fernandes, mas algumas pessoas dizem que na verdade não é dele. Mas o fato é que é verdadeiro.


Millôr Fernandes: O nível de stress de uma pessoa é...


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de foda-se! que ela fala.
 Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se? O foda-se! Aumenta minha autoestima, me torna uma pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Me liberta. Não quer sair comigo?
Então foda-se! Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se! O direito ao foda-se! Deveria estar assegurado na Constituição Federal.


Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Pra caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade do que Pra caralho? Pra caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. 
A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende? No gênero do Pra caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo! O Não, não e não! E tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade Não, absolutamente não! O substituem.

O Nem fodendo é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranquila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral?
Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo Marquinhos presta atenção, filho querido, NEM FODENDO! O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o porra nenhuma! Atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um PHD porra nenhuma! Ou ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma! O porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.
São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone – presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. / Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu! Ou seu correlato Puta-que-o-pariu! Falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! Dito assim te coloca outra vez em seu eixo.
Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.


E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu? E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu! Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!
Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: Fodeu! E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez! 
Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? Fodeu de vez!

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se…

Millôr Fernandes

Pensador
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