Eu moro ao lado de um bosque de Pinus Elliotis,
e bem perto de um bosque mesmo.
Nesse bosque existem árvores lindas datadas em mais de 500 anos.
e bem perto de um bosque mesmo.
Nesse bosque existem árvores lindas datadas em mais de 500 anos.
Portanto, tenho sempre bem perto de mim pássaros, saguis, esquilos e uma vez por ano.... cigarras.
Estamos na época em que elas cantam.
Sempre ouvi que a cigarra morria depois que cantava.
Este ano resolvi fazer uma pesquisa sobre elas e encontrei uma explicação bem legal postada por um doutor em zoologia e professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais chamado Marcos Rodrigues em .
Vejam que legal:
Marcos Rodrigues* - 30/10/13
Nestas noites quentes e úmidas que prenunciam o verão, 'a
insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito'. É quando percorro meu
jardim na tentativa de observar um dos grandes espetáculos do planeta, munido
apenas por uma pequena lanterna made in china.
Sob um céu comandado por Vênus procuro por buracos na
superfície da terra nua, perfeitamente redondos, com cerca de um centímetro de
diâmetro. Nestes dias após o equinócio da primavera, as primeiras chuvas
umedecem o solo que estava seco e o aumento da temperatura despertam as ninfas
das cigarras que estavam vivendo dentro da terra, em estado quase letárgico, a
sugar a seiva das raízes das árvores.
Essas ninfas, de carapaça dura, ou, como preferem os
entomólogos, de exoesqueleto duro, cavam túneis que as levam à superfície.
Esses pequenos buracos são a saída final para um mundo completamente novo a ser
descoberto. No entanto, as ninfas só saem à noite, quando seus predadores
dormem sobre os galhos daquelas mesmas árvores. É aí que começa o espetáculo.
As ninfas se deslocam lentamente, como velhos tanques de
guerra aposentados da primeira guerra, e com o auxílio de poderosas pernas
anteriores, repletas de espinhos, sobem a primeira superfície vertical que
encontram, seja o tronco de uma árvore, seja uma parede bem rebocada. Após uma
longa, lenta e cansativa escalada de alguns centímetros, às vezes até dois
metros, as ninfas param. Ficam ali, penduradas ao léu, estáticas. Pouco a
pouco, e magicamente, uma fenda aparece ao longo das costas da ninfa, e por ali
vai emergindo o indivíduo adulto. Primeiro surge a cabeça com os enormes olhos
que brilham à luz da minha pobre lanterna. Depois parece que o corpo mole do
adulto escorrega vagarosamente pelo exoesqueleto até liberar as pernas.
Finalmente, já fora da carapaça, mas agarrado a ela, as asas começam a inflar
até se formarem completamente.
Todo esse processo pode durar horas, e é chamado de
metamorfose incompleta, que é o termo que se usa quando a ninfa é muito
parecida ao adulto, mas sem asas e sem órgãos reprodutivos maduros. Isso é
diferente da conhecida metamorfose completa típica das borboletas, quando
existe uma forma larval e um estágio de pupa, totalmente diferentes do adulto.
Lá está a cigarra adulta, sob o mesmo céu escuro iluminado por Vênus.
Mas é durante o alvorecer do dia, e quando o sol está a pino
e também na boca da noite que sentimos a presença destes adultos. Em todo o
centro sul-sudeste do Brasil, nos meses de dias quentes de outubro e novembro,
os machos das cigarras adultas emitem seus vigorosos e, para alguns,
estridentes, cantos nupciais. Geralmente, a espécie que associamos a este canto
é a cigarra-gigante (Quesada gigas), mas na realidade, existem muitas espécies
de cigarras e cada uma com seu canto característico. Esse canto é feito por um
par de estruturas abdominais chamadas tímbales, que é uma placa estriada
situada em uma membrana. Internamente a essa estrutura há um saco aéreo
traqueal que funciona como uma câmara de ressonância.
O som de algumas destas espécies pode atingir até 120
decibéis, o que já é classificado na faixa de som ensurdecedor. Para termos uma
ideia, é comparável ao barulho do decolar de um avião de grande porte. O ruído
de um trânsito de carros numa avenida movimentada chega a 80 decibéis.
Mas o som destas cigarras não é privilégio das regiões
tropicais. Na região do Mediterrâneo, milhões destes seres surgem nos meses de
verão boreal, junho, julho e agosto. Lá costumam cantar nas horas mais quentes
do dia, e o canto é tão alto que a maioria das espécies de aves se cala durante
estas horas. É que o canto daquelas cigarras simplesmente as ensurdece. Este
fenômeno é chamado de mascaramento, ou seja, quando um som se sobrepõe a todos
os outros. Imagine-se num ambiente fechado com o show de uma banda muito
barulhenta. Lá dentro, o som ambiente simplesmente impede a comunicação entre
as pessoas. Lá dentro, você tem que gritar para ser ouvido. No caso do
Mediterrâneo, as aves não se engajam nesta atividade que demanda muita energia,
o grito, e, portanto, simplesmente se calam.
Na verdade os machos das cigarras têm pouco tempo de vida.
Na fase de ninfa elas podem viver anos, às vezes 2, às vezes 17 anos debaixo da
terra, numa vida que consiste em apenas sugar a seiva das raízes que a cercam.
Mas quando chega a hora de se transformar num adulto, tudo muda. Na fase adulta
ela tem a oportunidade de voar, cruzar os céus, enfrentar a liberdade da vida
em todo o seu fulgor. Mas nada é de graça. Essa vida dura não mais do que um
singelo mês. Além disso, há perigos por toda parte, e o maior deles são os
predadores. Entre estes, as aves são os mais vorazes.
No meu jardim, a época das cigarras é também a época em que
ocorre a visita de várias espécies de aves que ali encontram fartura alimentar.
Primeiro surge um bando de anus-brancos (Guira guira). Quem conhece esta
espécie sabe do seu ímpeto predatório. A começar pela sua face de olhos
grandes, quase voltados para frente (na maioria das aves os olhos estão
posicionados na lateral da cabeça) e um topete de penas na cabeça que nos remete
a uma grande águia predadora. Os anus-brancos vivem em famílias comunitárias,
de vida social complexa, onde há líderes e liderados. Eles chegam ao meu jardim
num grupo que varia de 8 a 12 indivíduos. Muito barulhentos e espalhafatosos,
pousam sobre o solo um ao lado do outro e começam a fazer uma varredura.
Enquanto andam em zigue-zague, procuram sua presa ativamente. Insetos e
lagartos se afugentam inutilmente frente ao exército de anus, e claro,
eventuais ninfas de cigarras que estejam saindo dos seus túneis subterrâneos na
hora imprópria. É por isso que a maioria das ninfas só sai à noite.
Os anus-brancos também conseguem capturar cigarras adultas
que descansam sobre os troncos e galhos de árvores, embora de maneira não muito
eficiente, pois anus não são bons voadores. Mas é aí que entram as
almas-de-gato (Piaya cayana), coincidentemente um parente próximo do
anu-branco, ambos pertencendo à mesma família, Cuculidae. As almas-de-gato
também não são grandes voadoras, mas correm pelos galhos com exímia facilidade.
Aparecem e desaparecem na ramagem como um fantasma. Por isso talvez o nome
alma-de-gato. Não há cigarra que seja páreo para estas aves. Elas as capturam
como capturamos amoras negras e suculentas, da maneira mais fácil e aprazível.
Há dezenas, talvez centenas de aves que se aproveitam deste
festim proporcionado pelas cigarras adultas. Bem-te-vis comuns (Pitangus
sulphuratus), bem-te-vis rajados (Myiodnastes maculatus) e bem-te-vis de bico
largo (Megarhyncus pitangua) se refestelam sobre os galhos horizontais com suas
presas agarradas ao bico. Eles costumam retirar apenas a parte mais polpuda do
'fruto' batendo o corpo da cigarra contra um galho e assim retirando suas asas,
provavelmente indigestas. O João-de-barro (Furnarius rufus) e até mesmo a
pequena cambaxirra (Troglodytes musculus) aproveitam pedaços suculentos ainda
presentes nestas cabeças de cigarras ceifadas e desprezadas pelos bem-te-vis. O
choró-boi (Taraba major) é outra ave visitante ocasional do meu jardim, que
costuma frequentá-lo exatamente na época das vacas gordas, ou melhor, das
cigarras adultas. Até mesmo pequenos gaviões como o carrapateiro (Milvago
chichima) aparecem ocasionalmente para caçar cigarras adultas. Há relatos de
outros pequenos gaviões que acabam se especializando na caça de cigarras
durante está época, como o gavião-sovi (Ictinia plumbea) e o suveiro-do-norte
(Ictinia mississippiensis).
O pouco tempo de vida das cigarras adultas faz com que elas
tenham que agir rápida e assertivamente. Precisam atrair uma fêmea o mais
rápido possível, antes que um desses predadores vorazes a transformem em
refeição. Assim, cantam o mais alto possível durante o máximo de tempo
possível. É um jogo perigoso, mas inexorável. Além de tentar atrair uma
parceira, os pobres machos precisam ficar em constante estado de alerta. Não há
estresse maior do que esse.
Esopo e La Fontaine colocam as cigarras injustamente como
insetos preguiçosos. Na agricultura, a cigarra é considerada uma praga, seja
porque as ninfas diminuem o fluxo de seiva nas raízes, seja porque aumentam a
inoculação de potenciais patógenos à planta, ou porque os adultos necessitam
danificar as folhas ou galhos finos para depositar seus ovos. Agora, os
cidadãos urbanos pedem a cabeça das cigarras por serem barulhentas e
irritantes. Não é fácil ser uma cigarra. Mas o que seria da vida destas belas
aves predadoras que tanto queremos preservar e tanto queremos que continuem
gorjeando sobre nossas palmeiras se essas criaturas tão estranhas, e para
alguns irritantes, fossem eliminadas?
Volto ao jardim. O céu azul pálido sustenta gordas nuvens de
barriga magenta no final do crepúsculo, e aos poucos os troncos e as folhas se
tingem de negro, restando-lhes apenas as silhuetas e uma atmosfera surrealista.
Vênus aparece solitário e brilhante, dando início a mais uma noite quente de
verão. As cigarras estão a pleno vapor gritando loucamente pelas amadas,
futuras mães de sua prole.
Achei sensacional a explicação dele.
Acho que como eu, muita gente só conhece a fábula da cigarra e da formiga, onde a cigarra passa por uma "folgada" enquanto só a formiga trabalha.
Depois desta pesquisa que fiz sobre a cigarra eu diria que ela canta para celebrar a vida que ainda tem e porque talvez ela ou melhor, ele porque é o macho que canta, deve ser um romântico inveterado.



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